Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014), de Ana Lily Amirpour

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Mundo(s) entre sombras

Daniel Rodriguez

Há quem ainda diga que o terror, enquanto gênero cinematográfico, está morto. Considerando a baixíssima qualidade de muitos dos longas que chegam até o público em geral, não é de se estranhar esse tipo de pensamento. No entanto, uma breve conferida na história do cinema deixa claro que se trata de um gênero que sobrevive a tudo e a todos, adaptando-se de geração a geração. Atualmente, o terror de qualidade vive em festivais espalhados pelo mundo, apenas esperando que alguém os revele.

Enquanto crítico especializado neste tipo de cinema, me dispus a desempenhar um papel quase arqueológico para com os filmes de terror, viajando pelo mundo em busca do que há de mais interessante. Em uma dessas jornadas, por volta do final de 2013, descobri A Girl Walks Home Alone at Night, um dos filmes selecionados para o festival de Sundance no início de 2014. Mesmo após o sucesso no festival, o filme permaneceu elusivo e sombrio, com apenas alguns pôsteres e boatos circulando pela internet a seu respeito. Fato é que o filme só chegou ao Brasil agora em 2016, com o título Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) e, ainda assim, permanece um filme pouco conhecido.

Fenômeno em Sundance, Garota Sombria Caminha Pela Noite foi o longa-metragem de estreia da diretora e roteirista Iraniana Ana Lily Amirpour – e uma estreia daquelas que não deixa pedra sobre pedra. Os primeiros espectadores se depararam com algo aparentemente oriundo do gênero terror, com certas influências notáveis, mas que ao mesmo tempo desafiavam convenções e estilos. Conseqüentemente, o filme acabou sendo enquadrado em uma categoria própria, da qual nenhum outro filme faz parte: o Faroeste de Vampiros Iraniano. E esse título faz todo o sentido do mundo.

Garota Sombria Caminha Pela Noite se passa na cidade fictícia de Bad City, aparentemente iraniana, mas na realidade, californiana. Apesar de muito bem representado como um cenário saído diretamente do Irã e com seus personagens falando em farsi, o filme foi inteiramente rodado nos Estados Unidos, nos arredores de campos de extração de petróleo e uma série de outros lugares decadentes pelo estado da Califórnia. Há aqui um tipo de fusão entre dois mundos que funciona como um reflexo da própria diretora, que tem família e raízes culturais iranianas, mas cresceu nos Estados Unidos e tem a cultura americana como grande influência artística.

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Essa espécie de condensação, aqui percebida no âmbito espacial, é ainda mais acentuada na temporalidade. Um dos personagens se veste como um rock star dos anos 50; outro parece um figurão saído dos anos 90; a vampira já é bem moderninha, à la anos 2000. Não só o estilo dos personagens, mas também a cenografia e a própria estética em preto-e-branco criam um universo que existe por conta própria em um tempo indefinido. Isso é uma característica comum no cinema autoral, que os personagens existam em seu próprio universo particular e que, muitas vezes, causa um estranhamente imenso no público menos calejado pela experiência cinematográfica. Amirpour consegue imprimir na tela toda uma visão construída em sua própria mente, criando um mundo fictício real, permeado pelo fantástico.

Outro aspecto estético notável e frequentemente exaltado quando se fala em Garota Sombria Caminha Pela Noite é a trilha sonora brilhante, que varia entre uma espécie de rock inglês iraniano, eletrônica e um instrumental inspirado nas trilhas do spaghetti western. Tal mistura musical é outra faceta da condensação cultural e temporal que dá vida ao filme. O som das trilhas de faroeste, acompanhados de tempos dilatados e planos abertos mostrando uma cidade desértica,são responsáveis pela inclusão do ‘Faroeste’ na expressão “Faroeste de Vampiros Iraniano”. Em contrapartida, uma vampira que anda de skate e dança sozinha em seu próprio quarto ao som de indie rock trazem o filme para um universo pop bem contemporâneo e jovial.

A estética é, sem sombra de dúvidas, um fator preponderante em Garota…, mas ao contrário do que pode parecer, o filme não é um caso de “style over substance”, ou estilo em prol de conteúdo. Os tons de cinza que permeiam as imagens são bem representativos de seus personagens. Da vampira que vaga pelas ruas de Bad City usando seu xador (espécie de burca que deixa o rosto à mostra), ao traficante que atormenta algumas pobres almas com seu comportamento agressivo e visual bisonho, não existem personagens moralmente preto-e-brancos. Roubo, assassinato, prostituição, tráfico e vício são elementos comuns a estes, sem que sejam os únicos determinantes na personalidade dos mesmos.

Se há um tema subjetivo em comum entre os personagens, sem dúvidas este tema é a solidão. Amirpour opta constantemente por planos abertos que enfatizam o aspecto fantasmagórico e até onírico de Bad City, que parece ser habitada por meia dúzia de pessoas – e uma vampira, todos estes inicialmente muito distantes entre si e com dilemas fortemente marcados por esse distanciamento humano. A solidão costuma ser um tema recorrente em obras sobre o vampirismo, já que é um aspecto inerente à imortalidade e aos hábitos notívagos dessas criaturas. Neste caso especificamente, a Garota não é o único ser sombrio que caminha pela noite sozinha, apesar de ainda ser a única com gosto por sangue humano, gosto este, que vale frisar, parece estar diretamente atrelado a um certo senso de justiça, se considerarmos que suas poucas vítimas são homens violentos.

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Lado a lado com Amantes Eternos, de Jim Jarmusch – com quem Amirpour tem sido comparada constantemente -, Garota Sombria Caminha Pela Noite ocupa o lugar de mais influente e interessante filme sobre vampirismo da presente década, além de ser uma obra seminal do cinema independente e autoral nos últimos anos. Ana Lily Amirpour é uma das autoras nessa nova onda de horror independente que, merecidamente, conta com mais rostos femininos que nunca. Seu próximo filme, The Bad Batch, que ela mesma descreveu como uma história de amor pós-apocalíptica canibal, já é aguardado com ansiedade e com certeza terá distribuição maior, tornando desnecessário qualquer trabalho de caráter arqueológico.