Entrevista com Rodrigo Aragão

Rodrigo Aragão

por Ana Cláudia Ulhôa (com colaboração de Daniel Rodriguez)

Uma disputa de terras marcada pelo aparecimento de animais e pessoas mortas por uma criatura misteriosa; uma mancha negra que invade o litoral de um vilarejo e transforma os moradores do local em zumbis; uma mistura exuberante de lendas brasileiras, transpostas para cenários típicos do Espírito Santo: eis alguns dos temas trabalhados por Rodrigo Aragão, autor de filmes exibidos em mais de 30 festivais internacionais, em países como EUA, Holanda, Bélgica, Alemanha e Japão. Cineasta peculiar no cenário brasileiro, realizou três longas-metragens, Mangue Negro (2008), A Noite do Chupacabras (2011) e Mar Negro (2013), além de ter idealizado e dirigido um dos capítulos da antologia As Fábulas Negras (2014). Em conversa com a equipe da Rocinante, o artista capixaba revela como tem sido sua trajetória na sétima arte, por que escolheu retratar a cultura brasileira e como vê o futuro do gênero de terror no país, entre outras coisas.

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Como surgiu seu interesse pelos filmes de terror?

Meu pai era mágico e dono de cinema, então minha casa sempre foi sinônimo de filme e coisas de truque. E eu fui muito influenciado na minha infância pelos filmes dos anos 80. Sempre me encantou muito filmes como A Volta dos Mortos-Vivos, O Lobisomem Americano em Londres… Esses filmes foram muito marcantes para mim. E eu comecei muito cedo a fazer maquiagem com elementos caseiros mesmo, com coisas da cozinha da minha mãe, com massa de trigo, guardanapo, tinta guache. E eu descobri que conseguia assustar as pessoas com isso. Então eu acho que o interesse pelo terror surgiu a partir do momento em que eu descobri que era divertido assustar as pessoas. Eu me tornei profissional de efeitos especiais e comecei a fazer meus próprios filmes, muito porque, no Brasil, principalmente na década de 90, quando eu me profissionalizei se usava muito pouco efeitos especiais e eu comecei a produzir meus próprios roteiros. Foi por isso.

Como foi a sua formação?

Eu sou autodidata mesmo! Passei a vida tentando. Para fazer efeitos especiais, eu fiz curso de desenho, pintura, escultura, história em quadrinho, teatro de boneco. Eu estudei todas essas coisas, mas não me formei em cinema. Não fiz faculdade nem nada desse tipo.

Quais características dos filmes de terror lhe atraem mais, falando do ponto de vista técnico?

O terror é um gênero muito difícil. O que me atrai é que ele ultrapassa a barreira da fantasia. A coisa linda do terror é você conseguir uma reação tão verdadeira de uma platéia, como o medo, o susto, que não é real – o filme é fantasia. Isso me encanta. A pessoa entrar na sala de cinema ou colocar um filme e realmente sentir medo, mesmo sabendo que ela está totalmente segura, que o filme é mentira, que lobisomens, vampiros e aquelas criaturas não existem, faz do terror uma arte incrível.

Como você começou a fazer seus primeiros filmes? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória.

O produtor dos meus filmes se chama Hermann Pidner. Ele conheceu meu trabalho com máscaras e bonecos e a gente resolveu, primeiramente, produzir um espetáculo de terror itinerante, chamado Mausoleum. Era um espetáculo que a gente chegou a apresentar para 30 mil pessoas, de 2001 a 2004. Isso foi a minha grande escola de terror. Porque você imagina: 30 mil pessoas! Isso quer dizer que eu vi todos os tipos de reação de medo que você pode imaginar. O grupo se desfez em 2004 e, de 2005 a 2008, eu produzi um filme no quintal da minha casa chamado Mangue Negro. Metade desse filme foi produzido sozinho e metade com o Hermann. O Mangue Negro é um filme feito para amigos, com pouquíssimo dinheiro. Enfrentamos todas as dificuldades imagináveis e inimagináveis, com o mínimo de equipamento. E ele abriu muitas portas para mim, virou cult, recebi muitos prêmios, muitas críticas positivas – e graças ao Mangue Negro esse grupo que está reunido desde o Mausoleum continuou fazendo outras coisas. Fizemos um filme chamado A Noite do Chupacabras em seguida, que teve um orçamento um pouco maior, mas foi também totalmente independente. O Chupacabras me pareceu um personagem perfeito, porque ele é algo que todo mundo já ouviu falar, mas ninguém sabe exatamente como é a cara dele. Nós levamos seis meses só pra fabricar a fantasia. Foi um filme muito bem recebido, me abriu outras portas. O meu terceiro projeto é uma obra coletiva, e digo até profética, porque conta a história de uma mancha negra que contamina os peixes do mangue e do mar e isso transforma as pessoas em zumbis em uma comunidade. Algo parecido com o que está acontecendo em Minas e no Espírito Santo por causa da Samarco. O Mar Negro foi um filme pro qual a gente conseguiu distribuição no Japão, na Inglaterra – e nos abriu ainda mais portas. Todos esses filmes são independentes. Nenhum deles teve edital nem nada do tipo. O quarto é um projeto muito antigo que se chama Fábulas Negras. Pra ele, eu pude chamar outros diretores, que ajudaram e dar uma linguagem, uma roupagem diferente às lendas brasileiras. Então é um filme feito de episódios, onde a gente conta a história da Loira do Banheiro, da Iara, do Lobisomem e do Saci. Entre esses outros diretores que participaram está o grande mestre do terror brasileiro, José Mojica. A maior honra que eu já tive na vida foi poder sentar com o Mojica na cadeira de diretor e acompanhar ele dirigir um filme sobre o Saci. Agora eu tô me preparando para a pré-produção de um filme que se chamará Mata Negra, e que vai ser o meu primeiro filme com algum tipo de incentivo. Ele passou no fundo setorial. Eu acho que vai ser um novo patamar na minha vida, porque vai ser a primeira vez que eu vou ter uma estrutura, principalmente uma estrutura técnica, profissional. Sempre trabalhei com profissionais maravilhosos, mas o equipamento sempre foi de péssima qualidade. E também estou trabalhando em transportar as Fábulas Negras para a televisão com mais episódios, porque o folclore brasileiro tem muitas lendas interessantes que podem render ótimos roteiros. Então eu tenho trabalhado nisso ultimamente. Não sei se falei demais (risos).

Como é o cenário dos filmes de terror brasileiros no país?

Eu acho que produzir filme de terror no Brasil ainda é muito difícil. Estou nessa desde 2005, então são onze anos trabalhando com cinema de terror. Mas eu acredito que o terror brasileiro está começando a entrar na moda. Acho que a gente tem um número de diretores interessados pelo gênero que nunca tivemos, um número de produções cada vez melhor e uma qualidade técnica que nunca se alcançou também. Acho que o terror teve ciclos na história do cinema, como os ingleses na década de 70, 60, os italianos da década de 70, os americanos no ápice dos efeitos especiais nos anos 80, os japoneses com aqueles filmes mais assustadores de fantasmas no final dos anos 90, os franceses ultra violentos de 2000 para cá, e eu acho que a América Latina tem tudo para ter um ciclo de terror, porque a América Latina é um território mágico, com um realismo fantástico na literatura e com possibilidades mil. Então eu vejo o futuro do terror brasileiro com ótimos olhos.

Por que você decidiu continuar no Espírito Santo?

Porque o Brasil é muito grande. O Brasil é belíssimo e eu acho que as histórias que me interessam contar são essas fábulas. Os cenários que eu tenho aqui em volta são maravilhosos. Há um potencial imenso no Espírito Santo de cenários naturais, e uma equipe com que eu amo trabalhar. Eu discordo muito que o cinema brasileiro tem que ser resumido a Rio-São Paulo. Sou totalmente contra isso. As paisagens do Rio e São Paulo já foram mostradas em várias produções e novelas. Todo mundo já conhece aquilo. O Brasil precisa mostrar outras paisagens. Diante disso, valorizo muito, o movimento cultural que vem acontecendo em Pernambuco, por exemplo.

De onde surgiu a ideia de tratar da mitologia e lendas brasileiras no seu trabalho?

Eu cresci em uma aldeia de pescadores, então, tive o privilégio de ouvir muitos “causos” e histórias na minha infância e adolescência . Sempre achei a tradição oral um uma matéria-prima fantástica para o cinema. E como fã de terror, sempre me chateou tudo ser tão americano. A gente só vê produções bacanas se passando em cenários americanos. Então eu acho que você utilizar a lenda, a cultura e cenários brasileiros é uma maneira de fazer um cinema universal. Isso pode encantar o mundo e isso pode ser uma das explicações dos meus filmes terem um êxito muito maior no exterior . Então, é meio batida essa frase, sempre falo isso, mas “encante sua aldeia e encantará o mundo”. É um lema que eu sigo.

Como foi trabalhar com o Mojica? Ele disse, em entrevista, que lhe considerava um sucessor dele. O que você acha disso?

Trabalhar com o Mojica foi a experiência mais gratificante na minha vida. Você ver o mestre lidar com os atores, conduzir uma equipe extremamente feliz, porque a energia que ele conseguia no set era impressionante, e se alimentar disso é fantástico. Ele saiu daqui rejuvenescido com o set. Isso era notório para todo mundo. Ele saiu muito feliz também por ter trabalhado num filme tão pequeno. Acho muito significativo o último filme de um ícone desses ser uma obra sem nenhum patrocínio, sem nenhum apoio, sem nada. Ele me falou que foi super bacana porque lembrou o que ele fazia nos anos 60. Sem uma equipe muito grande, mas com pessoas muito dedicadas . Foi uma experiência totalmente do bem. Quanto a esse título de sucessor, é a maior honra que eu tenho na minha vida, mas eu sei que é impossível ser o sucessor do Mojica, porque ele é um personagem único, inimitável e insubstituível. Ninguém vai fazer nada parecido com o que o Mojica fez. Não dá pra imitá-lo. Eu fico muito honrado, mas sei que é uma missão impossível.

Sobre o projeto de levar o Fábulas Negras para a televisão, você tem alguma coisa definida?

Não. Nós estamos buscando. Posso adiantar que eu já escrevi 13 episódios e todos eles se passam em regiões diferentes do Brasil. Têm histórias com ícones da cultura brasileira como o Curupira, o Velho do Saco, o Lobisomem – vários personagens interessantes. E as histórias serão ligadas muito à tradição oral, que é uma parte interessante do Brasil. Poucas obras, na verdade, foram escritas sobre esses personagens. A maioria vem da tradição oral. A gente teve o Monteiro Lobato que fez um trabalho incrível por um lado, porque tornou essas lendas conhecidas, mas, por outro lado, ele as infantilizou. Eu tento buscar a raiz assustadora dessas lendas.