Entrevista com Robert Eggers

Robert Eggers

por Fábio Feldman (com colaboração de Odorico Leal, Daniel Rodriguez e Vinícius Correia)

  

O mundo do terror foi recentemente tomado de assalto pelo surgimento de uma pequena joia cinematográfica do gênero. Louvado em Sundance e recomendado por entusiastas do porte de Stephen King, A Bruxa (2015) é o primeiro longa-metragem do cineasta americano Robert Eggers.

O filme conta a história de uma família de puritanos sob o ataque de entidades demoníacas, numa região desolada da Nova Inglaterra, por volta de 1630. Trata-se do resultado de muitos anos de pesquisa acerca do modo de vida e das crenças e valores das primeiras comunidades puritanas dos Estados Unidos. Eggers é um perfeccionista infernal e procurou reconstruir com o máximo de fidelidade tanto o cenário e os figurinos quanto a mentalidade e o próprio inglês austero do período. De certa forma, o diretor é um misto de cineasta e folclorista. Boa parte do material de A Bruxa foi coletado em fontes originais, como relatos sobre possessões e outras bruxarias.

Nesta entrevista exclusiva, Eggers fala sobre sua formação, influências e detalhes do seu filme de estreia.

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Comecemos com uma pergunta geral. Que aspectos particulares do do terror tendem a lhe atrair mais (tanto filosófica quanto esteticamente)? Além disso, qual é sua opinião sobre o estado corrente do gênero?

Eu não sei o que me atrai no gênero. Eu sempre fui atraído por assuntos sombrios. Sempre fui interessado por bruxas, vampiros e fantasmas. Eu sempre preferi Darth Vader ao Luke Skywalker. Escuridão é metade do que está acontecendo no mundo. E merece ser explorada. Acho que as pessoas gostam de dizer que o gênero de terror está, atualmente, em mau estado. Porém, não tenho certeza se isso é totalmente verdade. Nós apenas nos lembramos dos bons filmes – não nos lembramos dos ruins. Nós nos lembramos de O Bebê de Rosemary e d’O Exorcista, mas não nos lembramos de toda a porcaria da mesma época. Obviamente, obras como The Babadook, Deixe ela entrar e até O Labirinto do Fauno provam que há muitos bons filmes do gênero por aí, compensando a porcaria de que todo mundo reclama.

A Bruxa tem sido consistentemente elogiado pelos críticos e, em nossa opinião, é um feito cinematográfico verdadeiramente fantástico. Você poderia dividir conosco algumas de suas principais influências? Quais diretores, escritores e artistas mais costumam lhe inspirar?

Bergman. Dreyer. Murnau. Dürer. Goya. Harry Clarke. Arthur Rackham. Gustave Doré. Contos de fada, religião, mitologia…

Você tem experiência com teatro (entendemos que esteve envolvido em montagens de Shakespeare, certo?) e também alguma experiência com TV. Você pode nos contar mais sobre sua carreira antes de A Bruxa? Quais foram alguns dos seus projetos anteriores e o que acabou lhe conduzindo em direção ao cinema?

Eu comecei no teatro, no centro de Nova York. Coisas experimentais, teatro de rua, etc. Era penoso, não havia dinheiro. Eu sempre projetei as coisas que dirigia. Concebia os cenários e figurinos. Um dia, uma diretora mais experiente viu uma peça de teatro de rua que eu estava fazendo. Ela me pediu para desenvolver uns cenários e figurinos pra ela, e eu percebi que podia parar de trabalhar como garçom e, em vez disso, ganhar a vida como diretor de arte em projetos de outras pessoas. Então, comecei com teatro e dança, depois fui pra cinema e TV, comerciais não-sindicalizados, trabalhos impressos, moda e assim por diante. Por todo esse tempo, eu estava escrevendo e dirigindo sempre que podia pegar emprestado ou roubar algum dinheiro.

Tudo em A Bruxa parece fortemente fundado na realidade, até a matéria das lendas. Quão difícil foi dar uma forma tangível – e convincente – ao que mentes seculares poderiam rejeitar como simples mitos e, ao mesmo tempo, sustentar a verossimilhança ao longo de toda a estória? Além disso, como você foi capaz de gerar a atmosfera altamente imersiva do filme?

Acho que a coisa mais importante ao se fazer um filme que realmente lhe transporta é, para mim, articular as imagens como se fossem minhas próprias memórias. Precisa ser minha própria memória de minha própria infância puritana. Como era o cheiro de meu pai naquele dia nos milharais? Qual era o aspecto da névoa pairando sobre o milho? Eu preciso chegar com esse tipo de detalhe. E já que não cresci no século XVII, isso requer uma enorme quantidade de pesquisa para articular detalhes que uma pessoa teria caso aquilo fosse sua própria recordação. É isso que é necessário para se recriar um mundo onde podemos acreditar na bruxa do mesmo modo como aqueles puritanos acreditavam. Foi difícil, no começo, engolir algumas das extremas doutrinas calvinistas, mas quando você está lendo os diários de pessoas e você lê sobre seus amores e perdas, eles rapidamente se transformam em seres humanos com os quais você consegue se identificar, ao invés de extremistas loucos.

Não há dúvida de que a trilha sonora de A Bruxa desempenha um papel muito importante no filme. Você poderia falar sobre a trilha e sobre o efeito que pretendeu alcançar com ela? Além disso, como foi sua relação com Mark Korven – você também esteve envolvido no processo de composição? Trata-se de uma trilha completamente original ou ela mantém um diálogo com outras fontes?

Originalmente, enquanto escrevia o roteiro, eu não queria música. Eu queria que tudo fosse tão “real” que apenas sons diegéticos do mundo do filme estariam lá. Entretanto, percebi que estava tentando articular alguns estados oníricos e estados emocionais extremos que não são parte da paleta comum de emoções e experiências, e eu precisava de música para levar a audiência lá. Eu não podia fazer isso só com imagens. A música é original, toda do Mark, exceto por três salmos. Katherine e as crianças cantam um salmo na carroça e os dois outros estão nos créditos finais. Trabalhar com o Mark foi ótimo. Ele tem um conhecimento incrível de música antiga e coisas dissonantes do século XX, e ele não tem medo de tentar nada.

Até uma pessoa que não sabe muito sobre a mitologia cristã pode ver que há diversas referências a ela no filme. Você pode nos falar um pouco sobre os materiais que usou como fonte? Quais são algumas das estórias e lendas que o inspiraram durante a escrita de A Bruxa?

A lista é muito longa. Eu li sobre uma bruxa elisabetana que foi julgada por dar uma maçã envenenada a uma criança. Esse relato sobre uma bruxa “real” com uma maçã envenenada é anterior a qualquer relato escrito sobre a Branca de Neve que eu conheça.

De certa forma, esse filme pode ser lido como uma versão cinematográfica de um “Bildungsroman”, uma narrativa de formação. Entretanto, aqui, a personagem, ao invés de se tornar cínica e se adaptar à realidade humana, se entrega ao que escapa a tal realidade. Ela se torna uma mulher quando abraça seu destino perverso. Você pode nos falar um pouco mais sobre a personagem, o arco dela e o que você desejou alcançar representando-a do modo como fez?

Eu gostaria que as pessoas interpretassem isso por conta própria. Entretanto, eu concordo que se trata de uma narrativa de formação. Originalmente, o filme era ainda mais uma “ensemble piece[1] e não havia personagem central – mas ainda acabava do mesmo modo. Thomasin era, originalmente, uma personagem ainda mais obscura, às margens da estória, e emergia apenas no fim. Trabalhando no roteiro com meus produtores criativos, fui levado a trazer Thomasin mais pra frente. Estou tão feliz por isso ter acontecido. É difícil para mim imaginar o filme funcionando de qualquer outro modo.

Outro tema com que o filme lida é família. Há um vínculo tribal que une esses personagens – um vínculo que é gradualmente destruído pelas forças dionisíacas da floresta. Você pode nos falar um pouco sobre esse aspecto do filme, a importância por trás da representação de dinâmicas familiares e sua relevância dentro de um filme tão sombrio?

O drama familiar é o drama mais interessante; ele interpreta um papel em todos os nossos relacionamentos através de nossas vidas. Ele é potente. Algo que eu amo em contos de fada é que eles parecem ser explorações inconscientes de dinâmicas familiares difíceis. Isso é algo sobre o que pensei muito durante a escrita do filme.

Você poderia nos contar um pouco sobre seus próximos projetos, The Knight e sua reimaginação de Nosferatu? Ambos serão filmes de terror? Alguma semelhança entre The Knight e O sétimo selo? Seu Nosferatu estará mais próximo do de Murnau ou do de Herzog?

Eu gosto da pergunta sobre O sétimo selo. Surpreendentemente, acho que ninguém me perguntou isso antes.

Não posso dizer muito sobre nenhum deles, exceto que “eu amo pesquisa”.

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[1] Nota do tradutor: “ensemble piece” – trama em que todos os personagens têm uma relevância equivalente