Cemitério do Esplendor (2015), de Apichatpong Weerasethakul

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O fantasma e o desejo

Odorico Leal

Qual o tema de Cemitério do Esplendor (2015)?

De início, há dois motivos que são a base do argumento do filme: primeiro, o motivo geral dos soldados adormecidos. Essa é a premissa ordenadora: estabelece o cenário fantástico, entre o real e o onírico. No plano do sentido, estabelece uma alegoria que pode ser política – em relação à história da Tailândia – ou cultural, e mais universalista, em relação à cisão entre o passado mítico e a modernidade.

Em seguida, há o motivo específico da aproximação entre paciente e enfermeira, que se dá de forma paulatina, estabelecendo o drama humano. Ou, simplesmente, neste caso, o interesse humano: sem conflito não há drama, e a relação entre Itt e Jenjira evolui quase como que intocada pela dinâmica do conflito. Há, sim, interditos: Itt é prisioneiro da enfermidade/encantamento do sono – cedo ou tarde, sempre regressa ao mundo dos mortos; Jenjira é casada e oculta uma deformação na perna. No entanto, nada disso é tratado pela narrativa como conflito.

Tudo, na verdade, é tratado segundo um pacto de naturalidade, neste que é o mais recente lançamento do aclamado cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Jinjira é visitada por duas deusas, sob a forma singela de jovens comuns, vestidas com roupas comuns. O espanto de Jinjira é mínimo. As duas divindades explicam que, no local do hospital improvisado, havia um palácio, e que os espíritos dos reis mortos ainda batalham naquele mesmo lugar – por isso os soldados dormem e seguirão dormindo: estão sob um encantamento urdido pelos reis, que lhes consomem a energia vital a fim de continuar lutando.

Aqui, o filme se abre, mais do que para o onírico, para o fantasmagórico – o passado nacional retorna não como fonte de exemplaridade, mas como enfermidade paralisante.

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Keng, outra enfermeira do hospital, com poderes mediúnicos, oferece-se para canalizar a consciência de Itt. Essa é a cena central do filme: nela, Itt leva Jinjira numa visita ao esplendor do passado. O tempo-espaço em que se dá o passeio dos dois é o tempo-espaço de interseção entre o real e o fantasmagórico, entre o presente e o passado, o hospital/escola e o palácio.

Que é esse passado que, em vez de alimentar, suga a força do presente?

O passeio, como tudo o que há de sobrenatural no filme, dá-se segundo aquele pacto de naturalidade. Itt, no corpo de Keng, descreve o palácio. O espectador só enxerga a realidade de Jinjira: o bosque ao redor da antiga escola, cheio de lembranças. A cena é cinematograficamente fascinante – o que vemos não está lá; no entanto, tudo é comunicado com o maior impacto possível: o espectador, paradoxalmente, fica completamente absorvido pelo invisível.  Apichatpong “Mestre” Weerasethakul.

Do mesmo modo que o sobrenatural nunca é representado, o conflito – o elemento perturbador por trás da aparência de naturalidade – nunca vem à superfície por boa parte do filme. Quando vem, vem na forma do real intratável – o real intratável que Itt beija ardentemente, no bosque.

Contudo, indo e voltando do mundo dos mortos, Itt é uma espécie de morto-vivo: ele próprio ganha uma dimensão fantasmagórica. É isso que os passeios idílicos de Itt e Jenjira pela cidade ocultam.

Talvez esse seja o tema do filme, sugerido desde o título: o passado como fantasmagoria paralisante e irredimível, que torna o presente irrealizável. O presente é Itt, subitamente adormecido, recostado à pilastra, no meio do lanche com Jenjira.

O pacto de naturalidade esconde, na verdade, paralisia, impossibilidade. A cena amorosa entre Itt e Jenjira no bosque só pode acontecer num tempo-espaço fantasmagórico. No tempo-espaço real, Jinjira só pode pedir, inutilmente, que Itt não durma ainda.

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O estoicismo singelo de Jinjira é profundamente comovente – é como se ela, manca e envelhecida, representasse toda a potência de vida que resiste à fantasmagoria e que, humilde e insistentemente, deseja. Há algo de Macabéa emancipada em Jinjira.

Por isso é tão desolador o plano final do filme: nossa heroína sentada em frente à escola, olhando na direção das crianças que insistem em realizar uma impossível partida de futebol entre os montes de areia da escavação.

O que Jenjira vê? Os meninos no campo, o esplendor do passado? Que quer dizer seu olhar abismado? Trata-se do conflito oculto por todo o filme vindo à tona, afinal, como angústia – uma angústia que ultrapassa o drama pessoal da enfermeira, englobando toda a substância fantasmagórica do passado morto? Por que é tão triste a ginástica das senhoras, mesmo com o elemento cômico do rapaz que ingressa na dança (na verdade, mais triste ainda por isso mesmo)? Há uma tristeza indizível em toda essa sequência, que vai da turma de ginástica, passando pelos meninos na escavação, até o olhar abismado de Jinjira.

Cemitério do Esplendor é um filme estranho e, ao mesmo tempo, familiar. O ritmo lento e a atmosfera calma e sonolenta têm, no início, um efeito quase anestésico – convidam-nos quase à contemplação meditativa dos seus quadros (há, aliás, uma cena de aula de meditação, no primeiro quarto do filme). Por isso seu impacto emocional, preparado de forma tão sutil, é tão surpreendente. Um filme raro, calmo e silencioso, em tempo de fantasmagorias estridentes.