Bone Tomahawk (2015), de S. Craig Zahler

Bone Tomahawk 2

O horror que vem do oeste

Fábio Feldman

A origem do western se confunde, em certa medida, com a origem do cinema. E a partir de filmes como O Grande roubo do trem (1903), de Edwin S. Porter, responsáveis por impor uma iconografia que para sempre seria associada ao gênero; das contribuições, durante a década de 1910, de diretores como David W. Griffith e Thomas H. Ince, fundamentais para a propagação de convenções narrativas e visuais que se cristalizariam enquanto referências incontornáveis; e a ulterior sedimentação do primeiro grande ciclo clássico, o western se filiou, forte e continuamente, ao mito. Focando, sobretudo, o embate entre o herói civilizado, puritano, moral e a natureza inominável, selvagem e brutal – muitas vezes encarnada, metonimicamente, na figura do índio –, seus representantes propagaram uma pletora de imagens e tramas carregadas de sentido fundante, afins àquelas pertencentes a diversas outras grandes mitologias.  Tal ciclo mítico, porém, a partir, sobretudo, das décadas de 1960 e 1970, se esgota, dando lugar a um conjunto de outras variantes, menos relacionadas à oposição tradicional entre civilização e barbárie. O que se mantém é um mundo infernal, no qual a lógica dominante é a do explorador e a figura do herói é relativizada, parodiada ou plenamente desconstruída. Do reino do mítico, caímos no território da história.

Bone Tomahawk (2015), filme que marca a estreia diretorial do romancista S. Craig Zahler, configura-se, em certa medida, como uma espécie de retorno ao modelo clássico. Boa parte de sua estrutura e dos topoi de que se vale parecem estipular um diálogo bastante direto com integrantes desse modelo. Os protagonistas da obra refletem tipos reiteradamente contemplados pelo cinema de matriz fordiana – o xerife estóico, o vilão sedutor (unido a seu grupo por força da necessidade), o alívio cômico, o herói de bom coração. O arco que completam também remete ao referido universo de referências. Bone Tomahawk é, sem dúvidas, um herdeiro da tradição das narrativas de cativeiro, tipo de literatura popular produzida a partir do século XVII que se encontra na base conceitual do western enquanto gênero cinematográfico e que, invariavelmente, lida com representações do seqüestro de alguma donzela (doce, virgem, afável e cristã) por índios. Tal situação pedirá a intervenção do homem branco, mítico portador dos bastiões da civilização, e desencadeará uma série de ações arquetípicas.

Entretanto, há algo em Bone Tomahawk que me parece cindi-lo da tradição em que se insere. De forma engenhosa, Zahler foi capaz de estabelecer uma ponte entre o western e o terror, salientando várias das similitudes que guardam. Um dos temas que dão coerência ao terror enquanto gênero é o da experiência do contato com uma auteridade radical, responsável por destruir, ainda que momentaneamente, quaisquer ilusões apolíneas. Diante do unheimlich, daquilo que transcende nossas faculdades cognitivas e constrange nosso julgamento, resta-nos apenas a vertigem, a náusea, uma sensação visceral e reveladora do sem-sentido que norteia a realidade. Em seu Nascimento da tragédia, Nietzsche assegura que qualquer sociedade erigida sob a égide solar de Apolo, quando exposta à ira de Dioniso, encontra-se fadada à destruição. Não há construto humano que sobreviva à experiência do absurdo.

Bone Tomahawk 3

É esse um dos grandes ensinamentos que repousam no coração da tragédia, de diversos relatos míticos e, obviamente, dos grandes filmes de terror. Em sua obra, Zahler torna claro que tal conteúdo encontra-se presente também no western clássico, sendo o embate entre o homem branco e o índio potencialmente revelador de mais do que a oposição entre os valores americanos e a resistência selvagem: em seu cerne, habita o choque entre um mundo codificado, estável, familiar e outro essencialmente noturno, estranho. O triunfo do cowboy, este típico cavaleiro moderno, sobre o índio mítico imortalizado pela Hollywood clássica é semelhante àquele gozado pelo sobrevivente de uma chacina em um slasher film ou o daquele cuja sanidade não é comprometida após entrar em contato com entidades sobrenaturais numa casa mal-assombrada.

Consequentemente, o diretor e roteirista revisita o western clássico, esvaziando-o ainda mais de quaisquer contornos sociológicos e saltando de cabeça no território mítico. Nos filmes de John Ford lançados, mormente, durante as décadas de 1930 e 1940, os índios são representados como extensões da natureza, desprovidos de traços psicológicos ou características que os distingam uns dos outros. Em Bone Tomahawk, eles adquirem uma dimensão quase fantástica, sendo transmutados em figuras demoníacas e traduzindo, grotescamente, a selvageria própria da natureza e tudo aquilo que o edifício da civilização busca reprimir. As mise-en-scènes construídas ao redor deles são elusivas, seus movimentos, algo fantasmagóricos.

É importante salientar que, logo no primeiro ato do filme, somos informados que tais personagens não são representativos da totalidade de nativos americanos que habitam as paradas desérticas do oeste selvagem. Antes, são descritos como pertencentes a uma tribo específica, um núcleo particularíssimo que se destaca por sua irascividade, sua sede de sangue e suas habilidades guerreiras. Essa distinção concede ao filme liberdade para subordinar plenamente a função histórica à função mitológica. Manifestações do não-familiar, os índios de Bone Tomahawk são, mais do que qualquer coisa, monstros de filmes de terror. E é, justamente, a diluição referencial e a ampliação da chave mítica através da incorporação de elementos relacionados a uma tradição cinematográfica que encontra seus precursores em Allan Poe, Lovecraft e outros mestres da literatura de horror, que concede ao filme sua originalidade.

Bone Tomahawk 1

Os protagonistas de Bone Tomahawk são, como mencionado, variantes de tipos clássicos. Interessantemente, o mundo que habitam e defendem é um mundo marcado pelo artifício. Impera entre todos os indivíduos um certo senso de polidez, refletido, por exemplo, no inglês formal e “literário” que empregam. Os enquadramentos de Zahler são rigorosos; a lógica estrutural que impera é causal, focada na plot e na organização e motivações dos heróis.  A partir do momento em que seguem rumo ao deserto, porém, o ritmo do filme é afetado, a montagem se desintensifica, tempos mortos são usados sem parcimônia e, embora o arco dos protagonistas continue, classicamente, a ocupar o centro da obra, sua atmosfera parece se rarefazer. As formas do oeste circundante passam a evocar menos as imagens de Monument Valley e mais o deserto beckettiano de Monte Hellman. Feito febre, Dioniso se infiltra no corpo de Apolo.

Uma vez que os sobreviventes alcançam seu destino – no caso, o covil onde habitam os índios que raptaram a mocinha –, parte substancial da caracterização do filme é alterada. Embora a iconografia relativa aos heróis seja preservada, aspectos do entorno, dos vilões e as ações perpetradas por eles passam a remeter, mais claramente do que nunca, ao universo do terror. E mais: a um ciclo contemporâneo e visceral de terror. Em dada cena, um jovem é erguido pelas pernas e rasgado ao meio como uma folha de papel. Encontramo-nos em território mais caro a Lucio Fulci do que mesmo a Sam Peckinpah ou Sergio Leone. O núcleo “indígena” já nada tem de propriamente indígena. E a posterior vitória do herói – súbita e algo dependente do acaso (ainda que engenhosamente planejada), como costuma ser o caso em boa parte dos mitos e lendas – relaciona-se menos à supremacia de uma raça ou povo sobre outro e mais à sofrida e precária vitória do projeto humano sobre a natureza satânica.

Em 2015, Kurt Russell teve papel de destaque em dois westerns: Bone Tomahawk e Os oito odiados (2015) de Quentin Tarantino. Curiosamente, tais filmes parecem se situar em tradições essencialmente divergentes. Enquanto o pós-moderno whodunnit tarantinesco abraça o legado deixado por Leone, Corbucci e outros grandes desconstrutores da década de 1970, pintando um retrato paródico, cínico e brutal da história americana, o western de terror dirigido por Zahler parte da história a fim de transcendê-la, criando, para tanto, uma ponte entre reinos estéticos aparentemente diversos, mas intimamente afins. É possível defender que Bone Tomahawk possui falhas – um certo excesso de esquematismo; a predominância de um estilo distanciado que não permite à audiência se conectar mais visceralmente ao enredo (quase um pré-requisito no que tange ao horror); a irrupção de um desfecho abrupto e, talvez, inverossímil. É também possível refutar críticas dessa natureza, partindo-se do pressuposto de que a obra é feita do material de que se constituem as lendas. Independente do ponto de vista, contudo, parece-me claro que se trata de um impressionante filme de estreia – e um adendo importante a, ambos, o cânone contemporâneo de filmes de terror e do western.