A Assassina (2015), de Hou Hsiao-Hsien

A assassina 1

As entrelinhas da vingança

Douglas König de Oliveira

A incursão pelo gênero Wuxia, que mistura artes marciais e fantasia em um cenário medieval estilizado, é algo como um item obrigatório na filmografia de muitos importantes cineastas orientais, assim como os diretores norte-americanos constumam fazer alguma vez na carreira o “seu faroeste”, reverenciando um dos primeiros gêneros consagrados no imaginário cinematográfico de sua cultura.

A Assassina (2015), o aguardado filme de artes marciais de Hou Hsiao-Hsien, parece integrar tal universo, mas é na verdade um antifilme do gênero, e esta escolha tem conseqüências na sua apreciação. Se estes filmes se baseiam no conflito e na movimentação corporal de seus protagonistas, A Assassina tem poucos momentos onde a cinestesia das lutas atrai, assim como não explicita suas motivações. Se estes filmes têm enredos simples e privilegiam os tempos fortes da trama, neste o diretor emparelha uma enorme quantidade de elementos sem desenvolvê-los, e se atém mais a planos longos, onde diálogos e composições são o principal. A protagonista tem uma motivação interior que não acessamos facilmente, nem pela interpretação da atriz e nem pelo jogo de cena. Seus dilemas, assim como as conseqüências de suas decisões ao cumprir ou não uma de suas missões, tem um registro sutil, não interferindo no agregado de características atribuídas à personagem título. Como se observa, as instâncias de compreensão do enredo são colocadas em segundo plano, e as construções formais dão o tom às quase duas horas de duração.

A assassina 3

O filme apresenta planos indiscutivelmente belos, assim como um ritmo de encadeamento de imagens muito confortável para apreciá-los. Também utiliza cenas deslocadas do enredo, onde são mostradas paisagens e a natureza circundante, o que contribui para uma impressão ainda mais rarefeita da trama. Se a intenção do diretor é desdramatizar um filme em que se espera a pirotecnia típica do gênero, talvez  possamos garantir que o objetivo foi alcançado, e o espectador terá que ativamente buscar outros atrativos, que talvez sejam mais caros à paleta expressiva de Hou Hsiao-Hsien. Mas também podemos formular a questão de que, se for para elaborar um filme de artes marciais que sabota sua principal característica, que é o movimento, não seria então um gesto de iconoclastia vazia, já que provavelmente não surtiria efeito ou influência numa reforma do gênero, nem na estética vigente, tampouco no modo de produção destes filmes?

Hou Hsiao-Hsien parece realizar, grosso modo, um filme que está adequado às suas pretensões cinematográficas, mas que tenta desmontar os artifícios do cinema de ação oriental em favor da gramática de outro tipo de cinema, onde tempo e espaço fílmico são trabalhados de outra forma, como nas obras de Wong Kar-Wai e Apichatpong Weerasethakul. Mesmo o ícone do cinema oriental Takeshi Kitano, que trabalhou as lições dos tempos-mortos de Antonioni em Hana-Bi (1997), ao abordar um tema relacionado às artes marciais em Zatoichi (2003), foi bastante direto, aproveitando os expedientes consagrados do gênero. Assim como também Ang Lee em O Tigre e o Dragão (2000), que explorou os aspectos visuais mais fantasiosos e espetaculares, que se apresentam também em poucos trechos de A Assassina, mas de maneira ligeira e frustrada em sua continuidade, como que para coibir qualquer crescendo dramático incompatível com o registro pretendido.

A assassina 2

Se a estratégia de Ozu era combater o excesso de sentido pretendido pela gramática do cinema, e a revolução rosselliniana cristalizada por Antonioni era dissolver os centros dramáticos em beneficio de uma expressividade ampliada de todo o material e duração do filme, o registro de Hou Hsiao-Hsien parece tocar nestes pontos fundamentais do cinema contemporâneo, mas fora do escopo de gênero talvez seu repertório de temas fosse mais valorizado, por não gerar expectativa da audiência em como iria ser o tratamento destes dentro de uma tradição. A inegável beleza dos planos, a maestria nas soluções visuais que conduzem a trama inicial (como nas panorâmicas em vai e vem que resolvem habilmente todo o diálogo da criança com o pai diante do trono), é soçobrada pelo excesso de itens avulsos, sem ênfase suficiente pra se tornarem claras, ou elaboradas de maneira interessante para que se tornem enigmáticas. A guerreira mascarada, por exemplo, serve apenas como mais um contraponto à protagonista, sem ter território próprio ou desenvolvimento. Algo como uma pincelada a mais numa tela impressionista, que assim passa do figurativo ao abstrato sem harmonia, sem a forma gradual que um discurso de desconstrução deve ter para obter comunhão com o público, turvando nossa visão do objeto que o inspirou.