Editorial

Ao longo da década de 60, uma série de jovens cineastas japoneses resolveu se rebelar. Indo na contramão das imposições do sistema e rompendo com o legado de mestres como Ozu, Mizoguchi e Naruse, eles criaram algumas das obras mais desafiadoras da história do cinema nipônico – e, por que não, mundial. Contemplando temas extremamente controversos, renovaram diversos aspectos da linguagem cinematográfica, elaborando obras radicalmente originais e colocando seu país sob o influxo das novas ondas que varriam boa parte do cinema europeu de então.

Na presente edição da Rocinante, dedicamos a sessão Temática à incrível Nuberu Bagu, a Nouvelle Vague japonesa. Apresentamos críticas de filmes incontornáveis, dirigidos pelos geniais Nagisa Oshima, Hiroshi Teshigahara, Shohei Imamura, Susumu Hani, Kaneto Shindo e Yoshida Yoshishige. Dois ensaios, assinados por Adolfo Gomes e Douglas König de Oliveira, complementam a sessão, apresentando uma visão mais panorâmica do “movimento”, questionando o senso de coesão imputado a ele pela crítica e refletindo acerca de diálogos formais estabelecidos entre os japoneses e artistas de outras nacionalidades. Buscamos, assim, dividir novas leituras acerca de um conjunto fundamental de obras – a nosso ver, não tão discutido quanto deveria.

Para além de tais textos, disponibilizamos, também, na sessão Lançamentos, análises de um grupo um tanto heterogêneo de filmes, composto por, dentre outros, o blockbuster Rogue One, primeiro spin-off da franquia Star Wars, o polarizador Aquarius, o favorito ao Oscar La La Land e o vencedor da Palma de Ouro Eu, Daniel Blake.

Na sessão Livres, encontram-se uma entrevista exclusiva com o crítico italiano Adriano Aprá; um ensaio sobre as relações entre cinema e teatro, desenvolvido a partir de leituras de Marat/Sade, A viagem do Capitão Tornado e Duplo Suicídio em Amijima; críticas de Vá e Veja (Elem Klimov) e Hitler IIIº Mundo (José Agrippino de Paula), filmes políticos de vigor indiscutível e que, nestes tempos sombrios, permanecem mais atuais do que nunca; e, por fim, uma cobertura da vigésima edição do forumdoc.bh, na qual, ao longo de 10 textos, João Campos e o colaborador Bruno Greco apresentam um panorama amplo, deixando claro por que, após duas décadas, o forumdoc continua sendo um dos festivais mais celebrados, amados e necessários do Brasil.

Fábio Feldman