Editorial

Como perdura a subdesenvolvida formação de um país? O proletariado enquanto máquina, engrenagem morta. A indústria enquanto entulho, imundície espalhada. O comércio enquanto vala, travessia quebrada. A terra enquanto pedra, canto embrutecido. Os filmes de Leon Hirszman apontam um norte cinematográfico incontestável, constantemente atento ao povo, à sua luta e à imagem que dela resiste. A favor do trabalhador, o despertar da consciência e o lamento que canta, grita, nos encara. Contra o poder, a conciliação frouxa, o inconsciente corroído, a sobrevivência que amarga. Depois de um hiato que não desejamos repetir, a quarta edição da Rocinante concentra suas atenções sobre a obra desse cineasta brasileiro cuja relevância histórica tem se mostrado mais vigorosa que nunca.

Ao todo, trazemos 13 textos dedicados à análise dos procedimentos estéticos, narrativos e dramatúrgicos de Hirszman, que também evidenciam as potencialidades políticas que seu cinema sempre proporcionou. Este é discutido sob as mais diversas perspectivas: da crítica de Beatriz Saldanha sobre o raro Garota de Ipanema (1967) ao ensaio de Reinaldo Cardenuto acerca do itinerário cinematográfico do diretor, passando por leituras de longas de ficção mais notórios e curtas e documentários menos celebrados, um horizonte se abre para nos apresentar maneiras particulares de compreender a vastidão dessa obra. O dossiê conta ainda com a transcrição de um debate realizado no MIS-SP, em 1983, com a participação de Hirszman e Gianfrancesco Guarnieri, e uma entrevista exclusiva com Maria Hirszman, filha de Leon e responsável por seu acervo.

Além de tais textos, a corrente edição conta ainda com críticas de filmes recentemente lançados no mercado brasileiro. Como de costume, o lote é heterogêneo, compreendendo desde os brasileiros Deixa na Régua (2017) e A Cidade Onde Envelheço (2016) até os premiados Toni Erdmann (2016) e Paterson (2016), dentre outros. Finalmente, na seção Livres, trazemos uma entrevista com o realizador espanhol José Luis Guerín, conduzida por um dos novos membros de nossa equipe, Leandro Afonso; textos críticos relacionados às obras Giselle (1980), um dos grandes marcos da pornochanchada brasileira, Nada Levarei Quando Morrer Aqueles Que Mim Deve Cobrarei no Inferno (1985), importante curta de Miguel Rio Branco, e O Cavalleiro, Elyseu, documentário de Iulik Lomba de Freitas a respeito do grande cineasta brasileiro Elyseu Visconti; e um estudo comparativo que busca traçar paralelos entre Crianças (1976), do inglês Terence Davies, e Nº27, de Marcelo Lordello. Finalmente, em fevereiro, acresceremos à edição uma cobertura da 21º Mostra de Cinema de Tiradentes.

Fábio Feldman e Roberto Cotta