Editorial

Memória é chama que não se apaga. Por mais que tenham havido esforços para que o realismo poético francês fosse historicamente soterrado, muitos de seus filmes permanecem essenciais e seus principais cineastas reverberam até hoje, embora costumem ser menos lembrados do que deveriam. O sexto número da Rocinante homenageia esse contexto cinematográfico, trazendo um dossiê composto por sete críticas, que analisam as obras A Última Cartada (1934), de Jacques Feyder; Paixão Criminosa (1935), de Pierre Chenal; O Crime do Senhor Lange (1936), de Jean Renoir; Camaradas (1936), de Julien Duvivier; A Mulher do Padeiro (1938), de Marcel Pagnol; Águas Tempestuosas (1941), de Jean Grémillon; e Os Visitantes da Noite (1942), de Marcel Carné. Há também um ensaio sobre as possibilidades poéticas do movimento e outro sobre os aspectos trágicos presentes em seus filmes. A seção conta ainda com um texto em formato livre relativo à obra de Jean Vigo.

Além disso, esta edição apresenta críticas de filmes lançados em circuito comercial nos últimos meses. Vale ressaltar que dois deles são obras brasileiras que trafegam pelas esferas do horror, consolidando a trajetória de seus respectivos cineastas. As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra, ganha texto assinado por Larissa Muniz, enquanto Animal Cordial (2017), de Gabriela Amaral Almeida, é examinado por Fábio Feldman. Por sua vez, Daniel Rodriguez avalia as escolhas estéticas de Hereditário, terror americano de Ari Aster, e Ilha de Cachorros (2018), nova animação de Wes Anderson. Já Letícia Badan investiga Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017), da escocesa Lynne Ramsay, e Adolfo Gomes esquadrinha A Câmera de Claire (2017), uma das mais novas obras-primas do coreano Hong Sang-Soo.

Na seção Livres, Fábio Feldman e Duda Gambogi escrevem sobre, respectivamente, o clássico O Criado (1964), de Joseph Losey, e Os Amantes da Ponte-Neuf (1991), de Leos Carax. Feldman traz também um resumo do primeiro ciclo de exibições do Cineclube Rocinante, realizado em parceria com a Fundação Clóvis Salgado e a gerência do Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte. Marcando sua estreia em nosso corpo redatorial, Maria Ines Dieuzeide analisa três obras distintas de Claire Denis. Déficits históricos fizeram com que Letícia Badan e Pedro Veras dedicassem suas atenções a obras raramente repercutidas dos mestres Alain Robbe-Grillet e Nelson Pereira dos Santos. Por fim, temos também duas coberturas: Larissa Muniz acompanha os filmes do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte (FestCurtas BH), ao passo que Thomas Lopes Whyte analisa as obras do Festival de Brasília, em texto que será publicado semana que vem.

Fábio Feldman e Roberto Cotta