Editorial

Um gênero, um filone, uma variação ultra-estilizada do suspense/terror hitchcockiano; um verdadeiro caldeirão artístico no qual thrillers alemães, novelas pulp, emanações românticas, trilhas sonoras exuberantes e as cores de Kandinsky se misturam; um espelho de seu tempo e uma contínua fonte de inspiração para autores de diversos outros contextos. Tudo isso e muito mais, o giallo é a síntese perfeita do sublime e do grotesco, do sensacionalismo e da sofisticação formal, um universo fílmico a um só tempo monotemático e infinito, dada a beleza e a inventividade de suas composições.

Nesta nova edição da Rocinante, homenageamos esse universo, publicando críticas inéditas de filmes assinados por autores como Lucio Fulci, Umberto Lenzi, Sergio Martino e Francesco Barilli, bem como ensaios dedicados à Trilogia dos Animais de Dario Argento, à construção histórica do giallo e ao diálogo estabelecido entre o gênero e as artes plásticas. O número também possui uma entrevista exclusiva com Luigi Cozzi, especialista, crítico de cinema, colaborador constante nos filmes de Dario Argento e diretor de diversas obras, dentre elas o curiosíssimo Matador Implacável (1975). Através deste volume, buscamos abrir vias particulares de contato com tais filmes, tantas vezes vilipendiados pela crítica, tomados como exemplos menores do cinema popular italiano. Atingindo, em seus momentos mais intensos, o ideal de “cinema puro” idealizado e almejado por Alfred Hitchcock, o giallo é “um gênero em que se mata e se morre pelo olhar, e no qual a morte é, enfim, a grande virtude da arte.”, como sugere Daniel Dalpizzolo, um de nossos novos redatores.

Além do horizonte temático desta edição, apresentamos ainda críticas de lançamentos como O Dia Seguinte (2017), de Hong Sang-Soo; Visages, Villages (2017), de Agnés Varda e JR; Três Anúncios para um Crime (2017), de Martin McDonagh; Western (2017), de Valeska Grisebach;  The Square – A Arte da Discórdia (2017), de Ruben Östlund; Confronto no Pavilhão 99 (2017), de S. Craig Zahler; e Zama (2017), de Lucrecia Martel. A seção conta também com a estreia de Gabriel Martins, dividindo sua leitura sobre Pantera Negra (2018), de Ryan Coogler. Diante desse conjunto de textos, torna-se ainda mais notória a variedade de correntes de pensamento e estilos de escrita manifestados pelo corpo redatorial da revista, condição autônoma que muito agrada seus editores.

Por fim, na seção Livres, Adolfo Gomes perscruta os múltiplos caminhos da trajetória documentarista de Glauber Rocha; Douglas König de Oliveira investiga a vida e a obra de Louis Le Prince, possivelmente, o verdadeiro “pai do cinema”; Leandro Afonso escreve dois ensaios, um sobre a obra de Lucrecia Martel e outro aproximando John Carpenter e David Robert Mitchell; Joana Oliveira, movida pelo passamento do grande Fernando Birri, publica belíssimo trecho de sua dissertação sobre outro gênio realista, Cesare Zavattini; Roberto Cotta analisa o iconográfico Pelo Amor e Pela Morte (1994), de Michele Soavi, filme essencial no processo de formação de diversos cinéfilos; e Larissa Muniz, mais uma nova integrante de nossa equipe, escreve sobre as famílias ficcionais de três diferentes autores: Wes Anderson, Michael Haneke e Lucrecia Martel.

Entre o final de julho e o começo de agosto, um adendo especialíssimo sobre crítica cinematográfica será adicionado à corrente edição. Por ora, aproveitem os textos!

Fábio Feldman e Roberto Cotta